
» DEZ AO INVÉS DE UMA - CASA LAR PÉROLAS DO AMANHECER
Eles desejavam uma filha adotiva. Mas receberam oito meninas e dois rapazes para cuidar. Como uma demonstração do ditado que diz que "Deus escreve certo por linhas tortas", a história que levou o casal Alécio Antonio John (43 anos) e Andréa Fátima Bittenbender (41 anos) a se tornarem pais sociais na casa lar Pérolas do Amanhecer começou em um spa paradisíaco, com a vontade de adotar uma menina.
Alécio e Andréa se conheceram quando trabalhavam na indústria calçadista. Ele havia largado a vida de colono no interior de Santa Rosa, para tentar a sorte. Foi trabalhar em uma indústria calçadista, na qual também trabalhava Andréa. Embora trabalhassem quase lado a lado, foi em um baile que se encontraram.
A partir daí casaram e construíram a vida juntos. Com as dificuldades no setor calçadista, encontraram novos rumos. Ele passou por vários trabalhos, e finalmente foi trabalhar como uma espécie de "braço direito" do proprietário do charmoso spa Tour Life, em Montenegro. Ela abriu um salão de cabeleireira - onde, mal sabia, estava desenvolvendo as habilidades que, anos mais tarde, usaria como mãe social.
Morando dentro do spa, com dois filhos rapazes, consideravam que sua vida estava exatamente como devia ser. Mas parece que não era bem isso que o destino lhes reservava. Através dos patrões, conheceram a Ordem dos Pobres Servos da Divina Providência. O filho, Douglas, se interessou, e passou a freqüentar encontros vocacionais. Tudo isso levou a conhecer o futuro diretor do Abrigo João Paulo II, Padre Délcio, que vez que outra visitava o casal, levando crianças que moravam no Abrigo.
Em uma dessas visitas, o padre levou uma menina chamada Sharon. Os dois já vinham falando em adotar uma menina, pois os filhos já estavam grandes. Após a visita, comentaram com o padre sobre a possibilidade de adotarem a Sharon. A resposta foi surpreendente: e mudou as suas vidas.
Ao invés de falar sobre a possibilidade de adoção, o padre perguntou se não tinham interesse em cuidar de, mais ou menos, umas dez crianças? Andréa levou um susto. Sabia que Sharon tinha quatro irmãs, mas dez crianças era muito acima do que podia imaginar!
Padre Décio então explicou do que se tratava: o Abrigo estava passando por uma reestruturação, e as crianças e adolescentes iriam morar em casas, com um casal, para terem uma referência de família - algo que fazia muita falta para elas. Convidou o casal para conhecer mais de perto o Abrigo.
Ainda em dúvida, os dois aceitaram. A visita ao Abrigo acabou com as vacilações. "Quando cheguei ao Abrigo vi a realidade daquelas crianças, e senti que iria aceitar o convite do Padre Décio", recorda Alécio. Andréa lembra, comovida, dessa primeira visita: a Sharon chamou uma outra menina para mostrar "a tia que mora em Montenegro". E a menina imediatamente perguntou se ela não poderia adotá-la. Depois da visita, conversaram com os filhos, Douglas e Jonata. "Houve alguma resistência", comenta Alécio. Mas explicaram que era o que desejavam fazer.
No dia 1º de janeiro de 2005 começaram a sua nova vida, como pais sociais, depois de uma despedida dolorosa e saudosa daqueles que haviam sido seus patrões por vários anos e com quem tinham laços de muito afeto. O spa ficou para trás, e começou uma vida com muitos desafios: achar médico para uma criança doente, lidar com as dificuldades emocionais de um adolescente, harmonizar as diferenças de comportamento são provas diárias colocadas no caminho de quem escolhe ser pai e mãe social.
Valeu à pena? Nenhum dos dois hesita em responder que valeu, e muito. Sob sua responsabilidade estão oito meninas - inclusive a Sharon e suas irmãs - e dois meninos. Cada conquista de um deles é vista como uma vitória do amor e da responsabilidade - um par que sempre anda junto dentro da casa lar. Os dois meninos - adolescentes - já estão encaminhados, com curso profissional e carteira de trabalho assinada. As meninas estão sendo educadas na mesma cartilha, que ensina a serem pessoas de bem e trabalhadoras. "Eu vim do interior, pobre, e construí minha vida com esforço e honestidade", comenta o pai social. E é isso que ensina.
Carinho não falta para ninguém. Em dia de jogo do Internacional, lá vai Alécio e sua turma para o estádio, todo mundo de camiseta e bandeira em punho. Em dia de festa, Andréa começa os preparativos dois dias antes: é preciso cuidar dos cabelos, fazer penteados, tratar da pele, mãos e pés das meninas.
Ambos têm uma visão bem objetiva de seu trabalho. "Sabemos que o que fazemos não é garantia absoluta de que esses jovens terão um futuro feliz. Mas temos a certeza de que ajudamos a dar um bom início nesse futuro", conclui Alécio.
A FAMÍLIA
O casal Alécio e Andréa é pai de Douglas José (20 anos) e Jonata André (19 anos) e pais sociais de Sharon (10), Luana (12), Andrieli (12), Gabriela (12), Joice (12), Deise (13), Jenifer (15), Maristela (15), Fabiano (14) e Sandro Aurélio (16). Sharon, Luana, Deise, Jenifer são irmãs de sangue.
Todos são irmãos sob o olhar protetor de Alécio e Andréa.

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